domingo, 14 de agosto de 2011

A valsa da Libertação

Escrito por: Mario Barbosa em 14/08/2011

Se puderem ler ouvindo a musica abaixo, fica bem melhor!

Era o baile de inverno no Castelo do Príncipe Vermont, todas as damas do reino foram convidadas, não foi diferente comigo. Minha família tinha posses e meus pais achavam que aquele evento em particular seria uma ótima oportunidade para arranjar um pretendente rico. Alguém que pudesse nos proporcionar mais status e quem sabe aumentar assim o nome e o legado dos meus. Eu sempre achei esses eventos chatos, nunca consegui entender qual era a diversão em ficar se exibindo e esperando fisgar um daqueles fidalgos engomadinhos e egocêntricos.

Mesmo tendo a obrigação em estar ali, não poderia deixar de negar que o salão de baile estava impecável, tudo muito bem iluminado e decorado, era primavera e as flores estavam espalhadas por todo o espaço, trazendo um aspecto jovial e fazendo com que um aroma doce pairasse no ar. As festas reais eram conhecidas por sua grandiosidade, mesas completamente cheias das melhores iguarias, artistas vindo de outros países para entreter os convidados, mas com certeza a melhor parte era a musica.

A orquestra real tinha fama de ser a melhor entre todos os reinos, o príncipe não economizava fundos para treinar seus músicos, produzindo sempre os melhores e mais ornamentados instrumentos, contratando sempre o melhor maestro, que treinava os integrantes até a exaustão. Os repertórios sempre iam de acordo com a época do ano ou o tema do baile, eram obras primas que enchiam os ouvidos com as mais belas melodias e que tinham o poder de me libertar, nem que por alguns instantes, da minha prisão diária.

Todos se dirigiram ao centro do salão e a baqueta do maestro se fez ecoar silenciando a todos, num leve movimento o primeiro acorde, radiante como um dia de verão, me acertou fazendo todo meu corpo vibrar. Lentamente fechei meus olhos e deixei me envolver pela melodia, que me lembrava à canção da minha velha caixinha de musica, tudo ao meu redor ia se dissipando, desaparecendo. O calor do sol se fazia cada vez mais forte, ao passo em que a musica ia crescendo e se tornando mais complexa a cada novo instrumento que era adicionado.

Não estava mais no salão, aquele era outro mundo, eu sentia a relva tocando os meus pés nus, sentia o vento brincando com meus cabelos e trazendo mais daquela divina melodia aos meus ouvidos, fazendo todo meu corpo se mover, criando uma coreografia única e divertida. Contagiados por toda a energia que exalava de mim, os seres mágicos que moravam na floresta, começaram a sair de seus esconderijos e se a juntar a mim. A melodia se tornou mais pesada, tambores anunciavam a chegada da chuva, o céu tornou-se nublado e as gotas começaram a molhar meu corpo, mas isso não fez minha dança parar, só deixou meus passos mais fortes na medida em que o cheiro da terra molhada invadia meus sentidos.

Rodopiando sem parar, eu ficava cada vez mais tonta, até que o cansaço fez meu corpo tombar na relva molhada, rindo alegremente os seres fantásticos brincavam com meus cabelos, fechei os olhos novamente, pedindo a deus para me deixar naquele mundo para sempre, enquanto a melodia se tornava cada vez mais fraca, era obvio que meu pedido não seria atendido.

O maestro fez um movimento brusco, e senti meu corpo sendo arrancando da floresta, enfiei minhas mãos na terra molhada, mais foi em vão, a realidade era mais forte, como um carcereiro que me trazia de volta para a carcaça que eu deixara, me trazendo de volta para o salão onde o chão de mármore frio me saudou com toda sua rigidez, o mundo real com suas grades e amarras.

Minha mãe puxou meu braço, conferindo meu vestido e se certificando de que eu estava impecável. Atravessando o salão, paramos perto da mesa de banquete, lá estava o homem que seria apresentado a mim, Lorde Bruiner, que devorava metade da comida que estava numa travessa, sem se importar com os olhares de nojo das pessoas ao seu redor. Seu rosto redondo e suado me trouxe asco e pude perceber claramente a lasciva que estava em seu olhar, ele era rico e meu destino tinha sido selado.

Beijando minha mão e marcando minha luva com a saliva, ele me dirigiu um galanteio que nem consegui ouvir. Se virando para a minha mãe, eles já discutiam quando poderia começar a me fazer a corte. Tudo acontecia rápido demais, mas não fiquei deprimida, porque lá no fundo eu sabia, que toda vez que aquela valsa fosse tocada, eu seria liberta da minha prisão e do meu destino cruel, nem que fosse por um pisca de acordes.

Um comentário:

  1. Mario você provou que quando se concentra consegue sair da sua zona de conforto sem deixar sua identidade de lado. É um texto diferente do seu comum, mas que mostra sua personalidade em todos os lados. A descrição da orquestra, do salão e do sonho da protagonista foi muito vívida e envolvente, e você sabe como descrições de cenário são difíceis de fazer. O tema da libertação através da música foi sutilmente e belamente explorado e eu, particularmente, me identifiquei com o arrebatamento sentido pela moça, pois sou completamente apaixonado por música. O final melhorou muito em relação à versão inicial, só precisou de mais atenção em alguns erros de português. Foi um salto imenso de qualidade em comparação ao conto anterior e combinou perfeitamente com a música. Mas tudo isso pode ser resumido e ampliado numa única frase: senti muito prazer em ler.
    Continue trabalhando que o seu potencial é imenso! Abraços

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